Coluna Semanal: 30 anos do assassinato do Padre José Maria Prada – Por Padre Remi

A Coluna desta Semana foi relatada pelo Padre Remi especialmente para o Pauta de Hoje e conta a história do Padre José Maria Prada, assassinado há 30 anos, no dia 29 de abril de 1991, em Salgueiro/PE.
Padre Remi de Vettor, italiano da congregação dos Servos da Caridade de São Luis Guanella, veio para o Brasil em 1968. Morou no Sul e Sudeste, se mudando em 1986 para o Sertão Pernambucano. Foi sacerdote de Serrita/PE de 1986 até 1991. Após a morte do Padre José Maria Prada, se tornou o Pároco de Salgueiro/PE, onde vive até hoje.

 

30 ANOS DO ASSASSINATO DE PADRE JOSÉ MARIA PRADA

Nascido em Portugal no ano de 1928, José Maria Prada estudou na Espanha e foi ordenado padre em 1953, iniciando sua jornada de fé e fidelidade aos princípios da Igreja Católica. Em 1955 partiu para Angola como missionário, onde permaneceu até 1976, levando uma vida de verdadeiro sacrifício, sempre em prol dos outros. Regressou para Portugal e em 1979 seguiu para o Sudeste do Brasil. Em 1982 escolheu o Nordeste, primeiro fixando-se na cidade de Exu e mais tarde em Salgueiro, onde seria assassinado.

Um Sargento da Polícia Militar que mantinha uma relação amorosa com uma jovem solicitou que o Padre José Maria Prada realizasse o seu casamento. Ao consultar os registros da igreja, o Padre descobriu que o homem já havia contraído matrimônio anterior e disse que o casamento não poderia ser realizado. Mediante a recusa, o indivíduo disse que o mataria se ele não efetuasse o casamento, mas o padre não quebrou as regras da igreja. Ao negar o tal pedido, Padre José Maria foi alvejado com cinco tiros, às 11h do dia 29 de abril de 1991 na Casa Paroquial, resultando na sua morte imediata.

 Como tudo começou?

Cheguei em Serrita no ano de 1986, Padre José Maria Prada e Padre Manoel Garcia eram os padres responsáveis por Salgueiro. Nos primeiros quatro anos tivemos pouco contato, mas sabia que eles viviam na casa Paroquial da Igreja Matriz, numa situação precária. Não havia funcionários e o Padre José Maria era quem cozinhava, arrumava e lavava as roupas, ele era um homem humilde, estava sempre com a mesma vestimenta e com um carro que sempre apresentava problemas mecânicos.

Em outubro de 1990, o Padre Manoel Garcia viajou para a Espanha, como fazia anualmente, conseguindo, posteriormente, retornar para a Angola, na África. Os dois padres trabalharam lá por muitos anos e o seu sonho sempre foi voltar. Após a partida do Padre Manoel, o Padre José Maria se tornou o principal responsável pela Paróquia de Salgueiro, a substituição deveria durar cerca de três meses, ele pretendia retornar para a Angola em janeiro de 1991, seguindo os passos do seu amigo.

Em dezembro de 1990 conversei com o Padre José Maria para saber quais eram os seus planos, pois a ideia era que eu viesse para Salgueiro após sua partida e eu precisava organizar minha mudança. Ele então comentou que tinha interesse em ficar mais tempo na cidade e pediu que esperasse, eu disse que ele ficasse o tempo que precisasse. Em meados da quaresma, voltei a contactá-lo para saber se ele já tinha algo programado, porém, o Padre José Maria pediu novamente para ficar, dessa vez até a Páscoa, ele alegou estar fazendo um tratamento dentário e precisava de mais tempo. Após a Páscoa, já em abril, conversamos novamente e ele mais uma vez pediu um pouco mais de compreensão porque pretendia ficar até junho para as comemorações de Santo Antônio, Padroeiro da Cidade.

Como foi o dia da morte?

Acredito que toda essa demora e adiamento para sua ida não foi um plano do Padre, mas sim de Deus. Se ele tivesse seguido o planejado e partido em janeiro de 1991, nada disso teria acontecido. Em 29 de abril de 1991, numa segunda-feira, o Padre José Maria foi assassinado. Na manhã do homicídio eu estava em Salgueiro, na casa das Irmãs de Vedruna, na Rua Caboclo Eduardo, quando elas receberam uma ligação dizendo que haviam matado o Padre, imediatamente corremos até a igreja. Chegando lá nos deparamos com o Padre José Maria estirado no chão, ainda não havia polícia no local. Retirei os óculos dele e uma caneca derrubada. Ele morreu com um pequeno pedaço de papel e uma caneta em suas mãos.

O que estava escrito no papel?

Estava escrito o número do livro e da página do casamento anterior que impedia o homem que o matou de se casar novamente na Igreja Católica.

Como era Salgueiro na época do homicídio?

Eu acredito que a morte do Padre se deu porque Deus quis o mártir para Salgueiro, ele era o Padre mais humilde da Diocese. Após a saída do Padre Manoel Garcia, o Padre José Maria criou um apreço por Salgueiro, ele se sentiu o único responsável e se apaixonou pela cidade. Sempre trabalhando com muito zelo, a população admirava a simplicidade e atenção dele. Talvez ele pensasse em ficar de forma definitiva.

A partir de 29 de abril, em cima do corpo e da morte do Padre José Maria, eu entrei como Padre em Salgueiro.  Infelizmente, Salgueiro precisou de um acontecimento para mudar a mentalidade do povo. O Padre foi a bandeira para a mudança da cidade. Na época vivíamos um momento difícil: muita violência, desorganização, injustiças, drogas e coronelismo. Mesmos com todos os defeitos que a cidade carregava, chegar a ponto de matar o Padre? Tornou inadmissível. Foi quando a população se questionou se esse era o Salgueiro que queriam deixar para os seus filhos, a partir daí o povo se desarmou religiosamente e socialmente.

Com o passar do tempo Salgueiro foi se tornando uma cidade mais acessível e mais preocupada com as causas, encontrei um terreno fértil e preparado, através do sangue do Padre José Maria. Com a acessibilidade e a abertura para mudança, iniciei um trabalho de conscientização social contra o uso de drogas, a violência e toda malandragem que havia aqui. Consegui ser uma voz, a voz de um povo que aceitou a evolução. Introduzi muitas reformas e eliminei maus costumes, agora Salgueiro era uma só comunidade, sem missas particulares para famílias tradicionais, com uma missa para todos, onde o povo colocava à sua vida e às suas intenções.

A missa agora acontecia na praça da Igreja Matriz, sempre muito cheia. Foi quando comecei a me posicionar sobre a violência, a polícia e as coisas erradas que aconteciam. A pregação e o envolvimento social começaram a mexer nas estruturas, na política, nos problemas que faziam Salgueiro ser uma cidade de medo. Sempre tive um caráter e pulso forte, fui e sou bastante decidido, mas se eu não tivesse encontrado o sangue do Padre José Maria, teria sido impossível. Comecei a receber muitas ameaças: “Já matamos um Padre, para matar o segundo não custa nada”, diziam. Queriam me amedrontar, mas quanto mais me ameaçavam, mais alto eu falava. Eles queriam o povo nas mãos, mas eu não permiti.

Salgueiro se transformou. A cidade que existia até a morte do Padre José Maria mudou radicalmente. Eu sou Italiano, morava no Brasil há muitos anos e nunca pensei que viria para cá, mas se Deus me colocou aqui, ele tinha um plano. Para que o plano de Deus fosse possível, eu tive que enfrentar e levar a frente uma mudança política, social e religiosa. E Salgueiro entendeu, aceitou e respondeu.

Onde o Padre foi sepultado?

Uma irmã adotiva do Padre José Maria pediu, em nome da família, que o corpo fosse levado para São Paulo/SP. Após uma noite inteira de vigília na matriz com cerca de dez mil pessoas presentes para dar o último adeus ao Padre José Maria, a Celebração Eucarística de encomendação do corpo se deu no início da manhã da terça-feira (30).

Depois da autópsia e retirada dos órgãos, pedi a uma irmã que trabalhava no hospital para resgatar o coração. Os tiros tinham o atingido e o órgão estava despedaçado. Ela recolheu e Dr. Buda preparou o material para conservá-lo. O coração hoje está sepultado em uma lápide na Igreja Matriz de Santo Antônio.

A pedido do Bispo da Diocese de Salgueiro, Dom Magnus Henrique Lopes, os restos mortais do Padre José Maria Prada retornarão para Salgueiro até o próximo final de semana deste mês (abril/2021), em homenagem aos 30 anos de seu falecimento.

O homicídio do Padre José Maria Prada abalou a fé do povo?

O assassinato abalou a cidade, mas não a fé. A fé foi fortalecida. Eu dizia claramente ao povo: “Não vamos cuspir em cima de um militar que matou o Padre José Maria. Não foi só ele que matou, Salgueiro o matou. Não são só as mãos dele, as nossas mãos também estão sujas de sangue.” Tínhamos chegado ao cume do mal-estar e precisava acontecer alguma coisa para a cidade se envergonhar, se sentir suja. As pessoas ficavam chocadas quando eu dizia isso, mas entendiam e acreditavam que era esse o caminho. As grandes caminhadas, lutas contra as drogas, pedidos por justiça, todos os acontecimentos que vieram após isso foi uma consequência da mudança e o Padre José Maria, a vítima inocente foi o meio para a evolução.

O assassino foi preso?

O grito do povo por justiça era muito alto, a camisa suja de sangue foi exposta numa cruz de madeira e carregada pelo povo nas celebrações e caminhadas como um pedido de justiça. Dez dias depois do crime fui até o Batalhão em nome do povo de Salgueiro perguntar porque ainda não tinham prendido o assassino. Acusei a polícia de ter escondido e dado fuga ao suspeito. “Não me venham com essa piada que ele fugiu”, contestei. O responsável pelo Batalhão negou e disse que fizeram de tudo para prendê-lo. Ninguém acredita nisso. Em abril de 2000 o caso foi tema do Programa Linha Direta, da Rede Globo.

O que aconteceu na cidade durante esses 30 anos?

A morte foi marcante para a história da cidade, foi quando a mudança começou a aparecer. O povo acreditou na própria força e começou a dar um basta na situação. Alguns anos após a morte, em 1999, foi instaurada uma Comissão Parlamentar de Inquérito – CPI – chamada Operação Mandacaru, centenas de soldados vieram para Salgueiro investigar crimes relacionados às drogas e me aliei ao povo para denunciar as máfias existentes, demonstrando a grave situação da cidade. Pedi aos fiéis que não ofertassem dinheiro, ofertassem denúncias. Como eles (os fiéis) tinham medo de dizer os nomes dos traficantes, eu pedi que escrevessem em um pedaço de papel e me entregassem. Ao depor na delegacia, entreguei todas as denúncias recebidas do povo que se uniu, participou e denunciou.

Em 2016, foi construído um memorial em mosaico, alusivo ao seu sacrifício, na Praça da Igreja Catedral, para lembrar as virtudes e o ato de coragem e fé de Padre José Maria Prada, que deu a vida em defesa das leis bíblicas.

Em 2020, José Maria Prada teve sua história de coragem e fidelidade à igreja retratada num livro. A obra “Padre José Maria Prada – Mártir da santidade do Matrimônio” foi escrita pelo seminarista da Diocese Salgueiro Tassicio Leal de Oliveira.

O assassino do Padre José Maria Prada nunca foi preso. Em 2011, o crime prescreveu.

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